2.5.07

Vaga-lumes

“O que será que determina a aparição de vaga-lumes?”, alguém me perguntou outro dia. Eu não sabia responder, é claro. Eu só sabia que vaga-lume é uma coisa tão fantástica que não dá pra não olhar. Não dá pra não ficar quietinho, atento, esperando ele piscar de novo, tentando adivinhar onde ele vai aparecer novamente. Será que ele vem em linha reta, com algum propósito, ou vem só vagalumeando por aí, deliciado da sua fosforescência tão rara entre os seres vivos?

Vaga-lume é coisa que todo mundo sabe o que é, mas quem já viu de perto? Quem já parou espantado diante de um brilhozinho no meio do mato que não é pisca-pisca de natal (este pobre representante do vaga-lume nas cidades), que não uma luz de lanterna ou de poste, que é única, uma luzinha muito tênue, viva, pulsando e pulsando...

Hoje em dia vaga-lume se conhece de livros infantis, da televisão, de ouvir falar, de infância na fazenda, no máximo. Sorte de quem teve infância na fazenda.

Quem é que pára para ver vaga-lume? As pessoas andam tão sérias que parar pra ver vaga-lume parece coisa de maluco. E por que eles aparecem tão pouco? Fico imaginando se eles aparecem apenas pra quem quer ver.

Naquele dia vi sim vaga-lumes, até pensei que estava vendo coisas, por ter corrido durante os últimos 20 minutos depois de meses (anos) de sedentarismo, e talvez estivesse apenas vendo pontinhos brilhantes devido ao esforço. Mas não. Eram vaga-lumes de verdade, como aqueles da infância, verdinhos, piscantes. Eu parei para vê-los. E os passantes me olhavam espantados.

20.3.07

Os patos

Os patos deslizam no lago do Sesc. Nem sei se ao menos são patos, ou se são cisnes ou qualquer outro animal menos comum. Sou garota da cidade grande e às vezes me enrosco nesses detalhes. Bom, mas eles são brancos e deslizam. É bom segui-los com o olhar. Sob a sombra da mangueira, recebendo o vento morno das tarde no rosto. Lá vão eles, um, dois, três, oito, nove. Estão todos lá. Toda semana verifico se um deles não tenha por ventura desaparecido. Algumas vezes conto só oito. Mas então o nono aparece vindo de lugar nenhum e se junta ao bando. Não, ele não fugiu. Não pulou o pequeno muro que separa o lago represado da parte mais baixa, onde o rio dá vazão e continua seu curso. Ele poderia fazer isso se quisesse. Seria fácil para ele bater um pouco as acetinadas asas, que apesar de não terem sido feitas para longos vôos, certamente o tirariam daquele lago, onde ele nada com seus companheiros todos os dias. Um dia após o outro. E outro. E outro. Nadar. Sair da água. Secar as penas ao sol. Procurar por comida. Nadar.

Mas não. Ele não fugiu, eu recomecei a contar e estavam todos lá, nove bicos, nove patos. Ninguém desertou o bando. Ninguém planejou escapar, aproveitando-se da distração dos outros componentes plumados do grupo. Simplesmente porque eles não querem. Os patos não sentem tédio. Eles não querem mudar de vida, achar um lago melhor, talvez. Um lago bem maior e mais farto de alimento. Com fêmeas mais atraentes... Nada disso. Eles não se inquietam e não querem fazer revolução. Eles não querem pintar as penas de verde em protesto nem pôr um piercing no bico, só para escandalizar. Eles não querem fundar um partido, ou derrubar um presidente. Eles não se importam com a alta do dólar nem com o preço da soja.

Eles apenas são. Nasceram, viveram e morrerão no mesmo lago, vivendo juntos todos os dias, dia após dia. Mas vendo eles assim, tão plácidos, tão lânguidos, dá uma calma, uma serenidade na gente... E esquecemos um pouco da nossa própria inquietude, da nossa ansiedade e frustração, por tantas coisas que gostaríamos de mudar, mas que não é nada fácil.